quinta-feira, 24 de novembro de 2016

ÍTACA

ÍTACA
de Constantino Kavafis (1863-1933)


Quando saíres a caminho de Ítaca,
faz votos para que seja longo o caminho,
cheio de aventuras, cheio de conhecimentos.
Os Lestrígones e os Ciclopes,
o zangado Poséidon não temas,
coisas assim no teu caminho não acharás nunca,
se o teu pensamento permanecer elevado, se emoção
requintada o teu espírito e o teu corpo tocar.
Os Lestrígones e os Ciclopes,
o selvagem Poséidon não encontrarás,
se com eles não carregares na tua alma,
se a tua alma não os colocar à tua frente.

Faz votos para que seja longo o caminho.
Para que sejam muitas as manhãs de verão
nas quais com que contentamento, com que alegria
entrarás em portos vistos pela primeira vez;
para que páres em feitorias fenícias,
e para que adquiras as boas compras
coisas de nácar e coral, de âmbar e de ébano,
e essências de prazer de qualquer espécie,
as mais abundantes que puderes;
para que vás a muitas cidades egípcias,
para que aprendas e aprendas com os letrados.

Deves ter sempre Ítaca na tua mente.
A chegada ali é o teu destino.
Mas não apresses em nada a tua viagem.
É melhor durar muitos anos;
e já velho fundeares na ilha,
rico do que ganhaste no caminho,
sem esperares que te dê Ítaca riquezas.

Ítaca deu-te a bela viagem.
Sem Ítaca não terias saído ao caminho.
Agora, já nada tem para te dar.

E se um tanto pobre a encontrares, Ítaca não te enganou.
Sábio como te tornaste, com tanta experiência,
já compreenderás o que significam Ítacas.




Constantino Kavafis (1863-1933)

 O Quarteto de Alexandria - trad. José Paulo Paz.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Como pode o problema ser a solução?

"A formulação de um problema é muitas vezes mais importante que a sua solução, a qual constitui apenas matéria de matemática ou de habilidade experimental. Propor novas questões, admitir novas possibilidades, encarar velhos problemas sob novos ângulos, isso requer imaginação criadora e assinala reais avanços na ciência"

Albert Einstein, A Evolução da Física

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Opinião e conhecimento.

“Se não sabemos em que consiste o conhecimento, talvez não saibamos qual das nossas opiniões é conhecimento. Um ponto de vista não é conhecimento apenas por ser opinião de alguém. Nem todas as opiniões pessoais profundas são conhecimento; e ser-se culturalmente respeitado não é garantia da opinião de alguém ser conhecimento. Nem uma opinião é conhecimento apenas porque queremos que seja ou porque acreditamos ou afirmamos que é. Nem todos os pontos de vista são especialmente conhecíveis. Que garantia temos de o nosso ponto de vista pessoal ser bom nesse aspecto?”

Stephen Hetherington, Realidade. Conhecimento. Filosofia. Uma introdução à metafísica e à epistemologia, Piaget, cap. IX, p. 135.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Ritos de Servidão

A recente proposta do ministro da Ciência e Ensino Superior, Manuel Heitor, de envolver as instituições apoiadas pela FCT no acolhimento dos novos estudantes universitários, constitui mais uma etapa na sua luta, louvável e persistente, contra as praxes. Trata-se de não dar tréguas ao achincalhar da ideia de Escola iluminista, organizada em torno dos valores da autonomia individual e da cidadania democrática, perpetrado pelas praxes. Face a estas, o registo corrente de quase todos os diferentes atores da vida académica (docentes, discentes, pais e variadíssimas associações) é o de uma condenação declaratória, mas sem consequências. Como quem rejeita um mau odor, depressa dele se afastando. Parece-me um erro grave, pois as atuais praxes não constituem uma regressão às práticas "académicas" do Antigo Regime, não reproduzem os ritos de casta de uma sociedade estratificada em ordens e estamentos. As praxes de hoje preparam um futuro de "servidão voluntária". Elas estão em linha direta com a degradação do ambiente cultural e psicológico de muitas escolas secundárias, transformadas em lugares ruidosos, onde a "indisciplina" é um nome pobre para designar a lenta erosão das condições de possibilidade para um ensino que não seja uma tóxica caricatura. De Verney a Sérgio, constituiu-se um projeto de Escola como preparação para a Cidade. Para cada um aprender e defender os seus direitos e deveres, pois não existe cidadania sem o respeito pelo espaço de proteção e dignidade que deve existir entre cada ser humano e o seu semelhante. As praxes dobram as almas para um futuro de abuso, prepotência, ódio à inteligência, amálgama violenta de identidades temerosas. Não são um recuo. São uma antecipação dos novos tribalismos para onde, distraidamente, nos estamos a deixar empurrar.
Viriato Soromenho-Marques in Diário de Notícias, 7-9-2016